quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Animação

Caríssimo diário a/r/tográfico, sei que fui um tanto relapso com você durante o ano. Dar aulas e construir nossa casa com minhas próprias mãos não tem sido tarefa fácil, por isso sei que você há de me perdoar. Aos poucos vou lhe colocando a par de outras excepcionalidades que tocam meu ser professor, artista, e pesquisador de minha própria experiência. Bom...

No último bimestre propus à turma 21, um segundo ano do ensino médio noturno, que fizéssemos uma curta animação. Primeiro fizemos um exercício com a criação de flipbooks, o que nos tomou duas ou três semanas. Depois partimos para a criação conceitual da curta animação em apenas uma aula, e nas 4 aulas seguintes, e finais do ano letivo, produzimos e fotografamos as imagens para o stopmotion:





Para o curto tempo que tivemos acredito que o resultado foi bem legal, e assim me confirmaram os alunos. Falando em tempo cabe aqui uma reflexão:

Como foi difícil trabalhar com apenas uma aula por semana com os segundos anos. míseros 40 minutos, que muitas vezes se transformavam em 30, numa turma por que o recreio atrasava por algum motivo, em outra, sempre, por que a escola libera os alunos 10 minutos antes em função da escassez de horários do transporte público noturno em Florianópolis. Isso ai, meia hora por semana para trabalhar artes de maneira experiencial (não, eu não ia me reduzir apenas às aulas monótonas e distantes sobre história da arte). Foi difícil planejar e tocar as aulas, e posso dizer que projetos de longa duração são bem complicados de acontecer nessas condições. Por isso que no ano que vem, com os segundos anos, devo trabalhar apenas música: construção de instrumentos (parte eu levo pronto de casa) tocatas e trocas de saberes sobre como tocar entre todos (professor e alunos). Ainda assim, o ideal seria ter duas aulas (aula faixa) por semana. Fazer o quê...

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Game na escola...

Acabei de criar um blog para postar os games de computador produzidos por meus alunos na atividade final (e experimental) que encerrei a pouco. Em breve mais detalhes e reflexões a respeito das possibilidades e limites dessa atividade.

http://gameartesescola.blogspot.com.br/



segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Quarta e última....


E a quarta e última turma que faltava terminar a HQ...
HQ T21 2014


terça-feira, 9 de setembro de 2014

Mais HQS...


Mais duas turmas de alunos terminaram a sua HQ de autoria compartilhada. Foram 4 semanas desde que eu fiz uma exposição sobre o surgimento e desenvolvimento das HQs (histórias em quadrinhos), alguns de seus aspectos formais, que fizemos a cinâmica de criação coletiva da narrativa e das imagens com uma câmera fotográfica, e que cada grupo de alunos trabalhou para montar e finalizar uma página. Com essa turma eu tive de montar a página 5, por que faltou grupo para fazer esta, e também a página 6 (última), por que a turma que estava fazendo simplesmente não me entregou no final da aula (levaram para casa, espero que não tenham perdido). Como quero encerar a tarefa por aqui e partir para outra finalizei eu essas duas últimas páginas. Para baixar o PDF clique no link abaixo (só cadastrar o e-mail no 4-shared, é gratuíto)



segunda-feira, 1 de setembro de 2014

HQs...

Duas turmas terminaram suas HQs, e eu terminei de escanear, retocar, e imprimir elas pra entregar uma cópia por aluno (sim, faço esse esforço). Eles discutiram brevemente o tema "preconceito", e fizemos a dinâmica de criar coletivamente a história, posteriormente a montagem das páginas, diálogos e balões para as HQs. Ao final, penso que elas sevem bastante como um diagnóstico do que eles pensam a respeito do tema, além de passarem pela experiência ética e estética através da elaboração das HQs. Quem quiser pode baixar os arquivos em formato PDF pra dar uma conferida:

HQ da turma 12

HQ da turma 13


sexta-feira, 29 de agosto de 2014

O último a saber...


Dou as 5 aulas nas segundas e quartas a noite. De terça pra quarta a diretora muda a programação das aulas e pra variar eu só fico sabendo quando chego pra trabalhar na quarta a noite (não é a primeira vez que ela esquece de me avisar só por que eu não frequento muito a sala de professores). Eu levava todo o material para "brincar" de histórias em quadrinhos com os alunos: revistas pra recortar, o trabalho inacabado deles, balões de HQ em tamanho grande feitos de eucatex, além de uma bateria eletrônica para trabalhar com as turmas de música.



Beleza, mas podiam ter me avisado. Então eu pensei: mas se é pra fazer uma noite de atividades que eles possam escolher e curtir, por que não montar a bateria na biblioteca (que geralmente fica fechada por que não temos bibliotecário) e aqueles alunos que desejarem podem ficar lá brincando com o instrumento. Quem sabe tocar ensina um pouco a quem não sabe, mostra seus saberes, e quem não sabe experimenta o instrumento musical.

Ao fim, sem ter planejado, aconteceu a abordagem da qual sempre fala meu amigo professor kinceler: "Simultâneidades Afetivas". Várias atividades em simultâneo: Eu com a bateria na biblioteca, o professor de educação física no ginásio com esportes, filmes em duas salas. E os alunos podiam escolher o que fazer a qualquer momento. Muitos vieram, participaram da "brincadeira" com a bateria, foram ver filme enquanto outros viam ver e tocar, e depois voltavam. Outros escolheram nem ir comer o cachorro quente pra continuar brincando com o instrumento musical. Foi uma noite de atividades livres, muito próximo da abordagem de arte relacional e colaborativa.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Vamos lá...


E aqui vou eu tentando manter este blog vivo. Experimental como surgiu, ainda procuro uma vocação para este blog. Sendo ele A/R/Tográfico, cabem aqui grafismos relacionados a minha prática de professor, pesquisador, e artista, sem grandes distinções (e esse é ponto desafiador).

Fotografei alguns orocongos que ajudei meus alunos de ensino médio a fazer:


Se der tempo ainda quero ajudar os alunos a pintarem estes instrumentos musicais. Será que guache pega em madeira de pinus? Vamos experimentar...

Com outras 4 turmas estamos elaborando histórias em quadrinhos de 5 a 6 páginas cada uma (uma por turma). O Tema que escolhi pra conversarmos e partirmos foi o do preconceito. Discutimos a partir das seguintes perguntas (maios ou menos assim, retiradas do pensamento de Emmanuel Levinas):
"Eu tenho o direito de dizer ao outro quem ele é e qual o seu lugar no mundo?"
Não por coincidência todas as narrativas, criadas em uma atividade que compartilhava o ato criativo, focaram no tema do Bullying. Em breve vamos ver como ficam finalizadas estas HQs...

O Coletivo Geodésica Cultural Itinerante, do qual faço parte, está organizando uma parceria com o Museu Victor Meirelles, para um evento no final de setembro. Quando estiver tudo organizado eu divulgarei aqui a programação e demais detalhes. Já adianto que pretendo fazer um "lançamento oficial" do game de computador que eu produzi (fiz tudo, personagens, gráficos, sons...) As Aventuras de Zé Baldinho.


A, e esses dias fiz dois orocongos de lata bem caprichados (com latas de bombons):

Orocongo Amizade

Orocongo Sonho de Valsa

Ambos feitos com latas que tinha tampa, com braço de angelim pedra (sobras de madeira da construção de minha casa que eu, minha namorada, e meu amigo Helton estamos construindo). Soam muito bem, em bom volume, incrível. Esses dois eu pretendo colocar para vender no final de setembro.

domingo, 17 de agosto de 2014

O Blog não está abandonado...

Abandonado...

Sinto como se tivesse deixado esse blog abandonado. Mas ainda não desisti dele. Fiquei muito atarefado com as aulas, a construção de minha casa (Eu, minha companheira e um amigo a fazemos), e o segundo game que estou produzindo por completo. Logo em breve quero postar fotos dos orocongos dos alunos, e outros que produzi pra vender, do game em que estou trabalhando, das HQs (histórias em quadrinhos) que os alunos estão produzindo, e outras coisas que tiverem relação com minha prática A/R/Tográfica.

Até Breve...

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Marasmo...


Entrega de boletins, fechamento de notas, pouco tempo de aula, greves de ônibus e outros adiamentos das aulas... e o tempo passa...


quinta-feira, 22 de maio de 2014

Focos... pontos de vista....


Poucas atualizações neste blog: ando bastante ocupado usando o tempo "vago" para finalizar o game das Aventuras de Zé Baldinho, que pode ser acompanhado pelo blog http://zebaldinho.blogspot.com.br/

Mas as aulas continuam.. orocongos, tocatas, desenhos... conselhos de classe e notas: aquele desperdício de tempo e energias que poderiam ser utilizados na sala de aula, mas vamos lá...

Passadas estas burocracias que apenas ensinam aos alunos como se comportar em fábricas e escritórios, vamos ao que me interessa: alegria e compartilhamento de saberes. Felicidade em ver rostinhos atentos em minha apresentação no auditório onde mostrei o planejamento anual: principais atividades e seus objetivos para o resto do ano. Me expus, me arrisquei, agora tenho de cumprir, mas acredito que comprometimento exige essas coisas. E vamos em frente...


terça-feira, 6 de maio de 2014

Desenhar....



Mesmo no ensino médio, muitos alunos pedem pra ter atividades de desenho, Pro preguiça, por costume, por acreditar que vai ser relaxante, ou por gosto, o fato é que eles pedem. Mas, muitos se recusam,ficam com receio de desenhar. Então vamos desconstruir umas coisas...

Sabem por que o desenho da criança é realista? Por que é realista para ela, dos 2 aos 8 (geralmente, vaira com os estímulos, não é determinado assim) o desenho da criança dá conta de representar a realidade para ela. Conforme sua percepção do mundo vai se tornando mais detalhada o seu desenho vai no embalo. Quando entre os 8 e 12 anos a percepção dá um salto, a mão não consegue acompanhar, ou precisa de muito mais tempo de treino para alcançar essa noção de "realidade", o que frustra e faz com que as crianças parem de desenhar. Ai ouvimos "professor, meu desenho tá feio", "professor, eu não gosto de desenhar", ou "professor, eu não sei desenhar".

E vocês sabem por que o desenho da criança é expressivo? De forma simples, é por que ele, em geral, tem mais pretensão de comunicar do que pretensões estéticas. Á sim alguma experimentação da do "gesto", da técnica, mas esta está presa a noção de realismo da criança, a sua busca por representar o mundo como ela acha suficiente.

Por estas e outras os desenhos das crianças tendem a ser mais informativo, tanto no conteúdo como na forma, e essa característica só aumenta conforme crescem. Como os egípcios, eles não querem deixar informações de fora. Melhor desenhar a pessoa pequena, para caber na folha. Então, vamos fazer um exercício para forçar os alunos a desenhar coisas grandes. Vamos lá, pelo menos 2 planos, um na frente, em close, aparecendo apenas uma parte de um objeto, pessoa, anila, bem grande, e outro bem longe, uma paisagem ao fundo.


Paisagem ao fundo - Canetinha e giz paste, A4, 2014



Paisagem ao fundo 2 - Canetinha e giz paste, A4, 2014

"A professor, mas ai não vai dar pra dizer se é uma bola ou um guarda sol"... "Exatamente, como eu disse, ai que é legal, se perde um pouco de informação mas quem olhar para o desenho vai perder mais do que 2 segundos olhando pra ela e tentando imaginar o que pode ser isso. Não tenham medo de fazer bem grande, de mostrar apenas uma pequena parte do objeto do primeiro plano"...

terça-feira, 22 de abril de 2014

Constatações...


Lendo o livro que cai na prova do mestrado em Artes Visuais da UDESC eu me pego refletindo um trecho que cito aqui:


"A 'monoforma' é essa forma normal de comunicação televisiva caracterizada pelo 'dilúvio de imagens e sons densamente empacotados e rapidamente editados, a estrutura modular sem costuras, mas fragmentada, que conhecemos bem' " (p.176) *


Eu estou cada vez mais convencido de algumas coisas com relação a comunicação nos nossos tempos:

- Formalmente a TV não fala a seu público, ela fala a sí própria, num diálogo esquizofrênico.

- Nós aprendemos a imitar a TV, reproduzimos essa (des)comunicação "monoforma" e não dialogamos com ninguém, apenas falamos para nós mesmos, vide exemplo as discussões no facebook

- A forma da (des)informação na TV não dá tempo para o pensamento. Nós precisamos de uma expansão no tempo e espaço para refletirmos, formularmos perguntas. A TV não dá tempo para isso, ela envia informações e opiniões a todo momento.

- Novamente, por imitação à TV, também somos rápidos em emitir opiniões: sem qualidade, sem parar para refletir, sem fazer perguntas a nós mesmos.

- Agora vem a constatação pior (perguntinha retórica): além da TV, qual outra instância que ocupa quase todo o nosso tempo que faz a mesma coisa? Eu respondo: a escola.


Hahahahahahahahahahahahahahahahahahaha...


* Citação de Reinaldo Laddaga em Estética da Emergência, citando trechos da fala de Peter Watkins falando de seu filme "A comuna", de 2000.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Ocarinas...



Não é preciso legenda...



Da próxima vez, lá pelo meio do ano, a meta é construir um forno a lenha na escola, junto com os alunos...

domingo, 13 de abril de 2014

Apropriação...



Nós nos apropriamos de todo o saber humano que sobreviveu até nós... a cultura só é viva quando é recriada. Pensando nisso...


Esses dias pintei um Boi-de-mamão "dos grandes". Fiquei pensando como ele conseguiu essa manta de fuxico, e por que daqueles grandes olhos fora de sua cabeça de mamão. Eu já sabia que sua origem é controversa, alguns falam da brincadeira do boi que tinha a cabeça feita de mamão, outros que o boi era manejado pelo "mamão", o beberrão que cambaleava e lhe dava o movimento "errático".





Pesquisando mais a fundo, encontrei alguma coisa no velho tomo do "Bestiário da Ilha de Vera Cruz", de data desconhecida. Adaptando do seu português arcaico, lá diz:

"Na altura 27 - 48 das cartas marítimas de El Rei, Sua Majestade, existe uma pequena ilha onde vivem criaturas selvagens que imitam aos homens e seus animais de Deus. Lá decidiram ficar alguns marujos dignos da lealdade de S.M., e que relatam fatos dos mais absurdos. Vossos súditos, que providenciaram um abrigo para sí e algum gado que para sua sobrevivência ficara, dão conta de uma criatura das mais fantasmagóricas e dignas de mundo tão absurdo. Tal ser infernal se assemelha a algo como as medusas dos oceanos, mas com grandes olhos  que se projetam de seu interior translucido, unidos por um interior que os lembrava uma noz, aquele fruto das nogueiras da terra consagrada.
Da primeira vez que deram conta da criatura a viram espiando suas ações através da vegetação densa e bruxólica de amaldiçoada ilha. Do'utra ocasião a criatura tentava os enganar se passando por touro. Contam que ela pairava no ar, com seus tentáculos de medusa serpenteando, e segurando um fruto amarelo da terra de Colombo, cuidadosamente esculpido como a cabeça do corno, de galhos e tudo o mais. A criatura simulava docilidade, apesar de seu caráter inatural. Em todas as ocasiões, vossos corajosos marujos se esconderam em seu abrigo, e quando davam por si a criatura já sumira". (Bestiário da Ilha de Vera Cruz, Tomo desconhecido, autor desconhecido, possivelmente página 12).



terça-feira, 8 de abril de 2014

Fato que me toca...


Aqui um vídeo, um pequeno recorte de uma fala de Manuel Castells, sintetizando muito do que também acredito: Além da escola ser uma estrutura que reproduz as relações de poder da sociedade, vertical, de cima para baixo, na parte que podemos considerar "pedagógica" a escola está obsoleta. A "informação" está por ai, e a quem tem acesso a internet pode acessar-la. O trabalho é ensinar a pesquisar: ensinar a aprender por conta própria com metodologia e alegria...

https://www.youtube.com/watch?v=eb0cNrE3I5g&feature=youtu.be

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Aquela juventude transviada...


Hoje passei uns vídeos para o terceiro ano:


Se vamos fazer tocatas com os instrumentos produzidos por nós essas são boas referências pra ir acostumando seus ouvidos que a tudo estranham...

Enquanto eu ouvia alguns cochichando baixinho, achando o Hermeto um velho louco e chato, o que foi confirmado por eles depois, eu pensava: irônico um velho com pinta de ancião ser considerado um louco chato por pessoas tão jovens, já que deveria ser o oposto. Jovens sendo "caretas" com um velho louco. Precisamos de mais velhos loucos...


terça-feira, 1 de abril de 2014

Inaugurada seção de Downloads...



Inaugurada a seção de Downloads no Blog. Ali vocês encontrarão links para baixar arquivos relacionados às postagens e propósito deste Blog, como as HQs produzidas por mim ou mediadas como atividades de autoria compartilhada, assim como artigos, ensaios, e ainda outros.

Downlodas

segunda-feira, 31 de março de 2014

Para mim ou para as aulas?


Semana passada fiz alguns instrumentos musicais. Além de um orocongo que dispensa pele de animal, acabei por fazer um "violãozinho", também com uma cabaça (porongo, catuto, etc...). Se eu fiz pra mim, pra vender, ou como preparação para minhas aulas? Para tudo isso ao mesmo tempo.


Orocongo de lata (lata, cabo de vassoura velho, tarraxa). Perfeito para fazer com os alunos do ensino médio, já que exige materiais simples que eu já estou guardando em casa e que vou também solicitar aos alunos.



Orocongo feito à facão: com cabaça e tarracha artesanal esculpida em madeira. O braço também esculpi (à facão). Minha mãe me conseguiu mais umas cabaças destas, vou fazer outros como esse e vender pra complementar a renda. Tanto esse quanto o de lata fazem parte de uma pesquisa que faço em paralelo aos amigos Lucas S. Kinceler e Leonardo Lima, sobre fabricação de instrumentos diversos.



"Making off " do violãozinho. Fiz com uma cabaça e um pedaço de caibro de angelim (meia perna de serra). Aqui o estudo era principalmente sobre os trastes da escala. Fiz a escala testando com o afinador, e fiz os trastes com filetes de cabaça que posteriormente foram colados e apertados até ficarem retos sobre as canaletas que esculpi na escala. O segundo estudo foi das cordas, descobrir a sonoridade do instrumento, em outras palavras, saber que instrumento era esse.



Por fim descobri que o instrumento é um Ukulele, aquele violãozinho havaiano. Ele é descendente do cavaquinho português, como o cavaquinho brasileiro, mas todos tem afinações bem diversas entre si dependendo do regionalismo. O Ukulele tem 4 cordas, sendo que a corda de cima (borda) é a segunda mais aguda.


A falta


Pensar que a criatividade pode se apoiar na "falta" como gatilho não é uma operação tão simples assim. Em situações relacionais, com comunidades, é mais uma questão de percepção, de estar antenado e aberto aos desejos e saberes das outras pessoas. A falta costuma ser complexa, não uma ou outra necessidade específica, mas coisas que só podem ser supridas na construção de novas relações entre as pessoas.

Dito isso faço meu "mea culpa" por ter de simplificar didaticamente esse conceito para trabalhar ele em atividades de criação de narrativa. Sabendo que o narrador, segundo Benjamin, é o sujeito que se apoia na distância do tempo e/ou do espaço para dar legitimidade à experiência que carrega sua narrativa, e que a ficção é aquilo que, de notável, não vem impregnado de respostas, cabe a quem fabula diante de uma imagem buscar suas "faltas" - fazendo uma redução, lançar perguntas para a imagem. 


Que lugar é esse? Como, onde, quando? Quem é essa pessoa? O que faz ali? Por que nos olha fixamente?


Meu amigo Antú


Hoje eu posso ser considerado um ancião, mas um dia eu também fui jovem. Foi a muito tempo atrás que eu vi aquela imagem, mas ela parece cada dia mais viva em minha memória. Naquela época esse lugar era muito diferente: no lugar de prédios e concreto tínhamos grandes pastos e morros verdes; no lugar de hotéis de luxo na beira da praia tínhamos grandes dunas como pequenos desertos dentro de um grande oásis; e no lugar de ruídos frenéticos de automóveis e aparelhos eletrônicos podia-se ouvir os sons do silêncio.
Era mais um dia comum, onde os dias tinham um ritmo diferente, mais lento, onde nenhum ocorrido se passava despercebido. Eu desenhava com carvão sobre papel de pão enquanto olhava para a paisagem de minha janela. Primeiro estava tudo lá, como sempre: areias de duna, restinga, e atrás morros verdes sobre um céu que já esmaecia. No minuto seguinte, como num flash, aquela figura: um menino de cabelos longos, olhando com grandes amêndoas para dentro de meu quarto.

- Sai daí menino, não vê que tá me atrapalhando – eu pronunciei aos berros.
- O que você está fazendo? – retrucou o menino.
- Não é da sua conta – arrematei.

Como somos ariscos com o novo e o surpreendente. Eu ainda não sabia, mas ali quase coloquei a perder uma grande amizade que duraria por décadas a fio.  Não fosse a insistência inabalável de meu amigo, que no dia seguinte me encontrara entediado sem ter o que fazer, não teríamos tido todas as aventuras que vivemos quando juntávamos nossas imaginações com os fatos e lugares desse mundo que já não existe mais. Mas essas são outras histórias, que prefiro narrar nas próximas oportunidades. Até lá.

terça-feira, 25 de março de 2014

Outras turmas...


Além do planejamento de longo prazo que trata de diferentes formas de narrativas, e gerar imagens pra elas indo do real para a representação, para o real, e assim segue, construo outra aula com outras duas turmas. São as "tocatas visuais", como dizem meus amigos Leo e Lucas. Eu e os alunos vamos construir instrumentos e tocar, sempre nesse movimento, criando imagens a partir da música e também o inverso. Tocatas são democráticas, aceitam músicos e não músicos, e e ambos tem o que aprender com elas.

Por algumas aulas sentamos e fizemos ocarinas. Sempre no final da aula tentávamos soprar elas. Saiu som? Então guardamos, se não saiu som, amassa e coloca no bloco de argila novamente. "A, prof, desmanchar? Deu um trabalhão, eu não vou fazer de novo isso..." "Isso mesmo, desmanchar as que não tocaram". 

Desprendimento e diálogo com o real: se fosse uma atividade de faz de conta, comum na escola, ficaríamos felizes em mostrar elas para os pais e dizer que servem pra algo. Mas não tem faz de conta, não é "trabalhinho de escola", nem mera recreação, é fazer no real. No mais, quem trabalha com cerâmica sabe que é assim: não atingiu o objetivo, faz mal, não se desperdiça a argila, amassa tudo e tenta de novo.


Ocarinas feitas pela turma 22 em 3 tentativas.

Ocarinas feitas pela turma 31 em 4 tentativas.

Números engraçados: Na primeira tentativa nenhuma ocarina saindo som (esperado), na segunda, duas tocando, na terceira 3, e na quarta 4.


quinta-feira, 20 de março de 2014

Ganhei um desenho...


Hoje colori um desenho que ganhei (minha encomenda especial). Antú, de 10 anos, filho da minha amiga Ana Lorena (também professora de Artes). Ela pediu a ele um desenho "grande", especialmente para me presentear. Hoje eu colori ele:


Esse foi o resultado do trabalho conjunto meu e do Antú. Imprimi em uma folha de gramatura média e utilizei giz pastel, um pincel e óleo de soja (sim, quem não tem óleo de linhaça improvisa com o que dá).

Quem será esta moça? O que fazia antes e o que fez depois desta imagem? Será esta narrativa distante no tempo, ocorreu no passado, ou no espaço, é o relato de um lugar distante, ou mesmo ambos? Se me contarem direi que é verdade...




quarta-feira, 19 de março de 2014

Ser professor é também ser trabalhador de uma categoria... 

"A escola não está ruim apenas para o professor, mas também para a comunidade", disse sabiamente o professor Eduardo. Por favor, assistam os dois vídeos abaixo...

http://vimeo.com/89456987

http://vimeo.com/89459748

segunda-feira, 17 de março de 2014

Walter Benjamin relaciona a narrativa historicamente à cultura oral. O sujeito da oralidade retira aquilo que narra da própria experiência ou da experiência relatada por outros. Para o autor, o narrador é um homem que sabe “dar conselhos” e o “conselho, entretecido na matéria da vida vivida, é sabedoria”. Ele fala do narrador ontológico, o narrador que dá conselhos é aquele que se expõe ao mundo, tanto no momento em que aconselha, quando no momento da experiência:

Quando alguém faz uma viagem, então tem alguma coisa para contar, diz a voz do povo e imagina o narrador como alguém que vem de longe. Mas não é com menos prazer que se ouve aquele que, vivendo honestamente do seu trabalho, ficou em casa e conhece as histórias e tradições de sua terra. Se se quer presentificar estes dois grupos nos seus representantes arcaicos, então um está encarnado no lavrador sedentário e o outro no marinheiro mercante” (BENJAMIN, 1980, p. 58).

Aqui ficam definidas as duas figuras ontológicas para o narrador benjaminiano: um, o sedentário, e o outro, o aventureiro. O que os une é que seu saber tem uma origem longínqua. O primeiro, distante no tempo, e o segundo, distante no espaço. E é essa distância que dá autoridade ao seu saber. Quem narra expõe sua vida, suas experiências e expectativas, por onde andou e não andou e o que a ele se sucedeu (BENJAMIN, 1980).
No lugar do contraponto à narrativa Walter Benjamin coloca a iformação:

A notícia que vinha da distância – fosse ela a distância espacial de terras estranhas ou a temporal da tradição – dispunha de uma autoridade que lhe conferia validade, mesmo nos casos onde não era submetida a controle. A informação, porém, coloca a exigência de pronta verificabilidade. O que nela adquire primazia é o fato de ser “inteligível por si mesma”. (...) Cada manhã nos informa sobre as novidades do universo. No entanto somos pobres de histórias notáveis. Isso ocorre por que não chega até nós nenhum fato que já não tenha sido impregnado de explicações (BENJAMIN, 1980, p. 61).


Narrativa e experiência são instâncias geradoras de sentido para aquilo que nos toca, diferentemente da notícia que apenas passa. Também fica claro que enquanto a notícia tem de se vestir de verídica para obter legitimidade, a narrativa necessita da ficção. Mas o caráter fantástico da narrativa, que pode lhe tirar a verossimilhança com o mundo factual, é o que lhe permite expor uma verossimilhança com os indivíduos e espaços sociais. Quem narra coloca fatos fictícios, mas discursa uma leitura de si e do mundo.


BENJAMIN, Walter. O Narrador. In: (vários) Os pensadores: Benjamin, Adorno, Horkhelmer, Habermas, textos escolhidos. São Paulo : Abril Cultural. 1980. P. 57 – 74.

terça-feira, 11 de março de 2014

JUSTO...

Se eu me proponho a colocar os alunos no real de Lacan, lá onde a falta nos move na busca que é o motor da criatividade, então nada mais justo que me jogar no desconhecido. Quando pedi aos alunos que conseguissem um desenho apenas com contornos de uma criança de 3 a 6 anos, eu sabia que nem todos conseguiriam. Uma tarefa inusitada, que nunca passaria pela cabeça de qualquer um que seu professor viria com tal pedido. Mas assim é a vida, assim é o real, e assim é a falta que move a criatividade. Além de exercício sobre volume, fases do desenho infantil, retomada do desenho com uma maioria de alunos que já parou de desenhar.

Pedi a uma amiga dois desenhos de seus filhos, encomendados especialmente para mim. No real é assim: o imprevisível, além do que dependemos do diálogo de nosso desejo com o desejo de outros, no caso, o meu, de minha amiga, e das crianças. Ainda não consegui os desenhos, mas sem desistir, tive de pegar desenhos da internet para continuar a atividade com os alunos. Se eu posso pegar desenhos da internet para colorir, nada mais justo que fotocopiar estes para os alunos que não conseguiram o desenho das crianças também terem algo para colorir. E assim procedi. Os desenhos que colorimos são de autoria compartilhada: são de quem desenhou, e de quem coloriu e criou em cima.

Só consegui refletir as questões destes parágrafos por que parei para escrever-los. E esse é um dos motivos por que um diário é importante: ele não é um fim, mas processo que permite a reconstrução de ideias. Se ele for a/r/tográfico, e dialogar texto e imagem, melhor ainda, pois possibilita a articulação dos dois hemisférios do cérebro (o da imagem e o da linguagem abstrata), ampliando ainda mais as possibilidades de reflexão.

Querem ver que bonitos os desenhos que colori?


Fonte da imagem original:


Fonte da imagem original:



segunda-feira, 10 de março de 2014

sábado, 8 de março de 2014

Uma narrativa...


Já viram quando uma criança desenha e seu desenho é uma narrativa viva? Como um brinquedo, a criança desenha, sobrepõe desenhos, vai adicionando os novos elementos que se encadeiam na narrativa, sobrepondo-os ao mesmo desenho. Não lhe interessa o resultado final, mas sim o percurso daquele desenho/brinquedo/narrativa.


"A bernunça é bicho brabo que engoliu mané João. Come pão, come bolacha, come tudo que lhe dão", e o que não lhe dão também. Interessantíssimas criaturas que vivem na mata de restinga de nossas praias (ainda que seu habitat esteja em extinção). Raramente avistada, ela tem uma grande capacidade de se camuflar, de forma muito mais habilidosa que um camaleão. Quase sempre atentas, elas também precisam de seu momento de sono, e é ai que elas mostram sua beleza. Grandes sonhadoras, elas materializam involuntariamente na superfície de sua pele as imagens que entretém suas mentes, sejam memórias passadas ou futuras.



Certa vez Bernadete, quando ainda bernuncinha, se perdera de sua mãe ao buscar abocanhar a rabiola de uma pipa.

Cansada e perdida, ela procurou um lugar onde se camuflar, sempre dando preferência aos brinquedos bagunçados do quarto de alguma criança desta terra.



Já desanimada por não conseguir direções, ela a avista um Boi-tatá voando em certa direção. Lembrou da lição de sua mamãe bernunça: "os Boi-tatás vivem nas ilhas menores ao sul da grande ilha, lá eles mantém seus ninhos e cuidam dos seus filhotes". Esperta que era, Bernadete seguiu a criatura tatarina para assim encontrar as praias do sul.


É claro que ela encontrou o fim de sua pequena odisseia, e essa lembrança vai viver para sempre nas narrativas de sua existência sonhadora.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Inspirações...


Nada como um bom contexto para inventar narrativas da imagem para a palavra, vice-e-versa, nesse movimento contínuo. Infinitas são as narrativas e imagens que podemos inventar a partir da imaginação de uma criança.


Fonte da imagem: http://www.conselhosdoheman.com.br/2013/12/pai-transforma-desenhos-do-filho-em.html

Reativando o Blog depois do feriado de carnaval...


Imagens que tocam minha prática...

E agora?
Dê muito papel grande e giz de cera pra criança...


quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Perder para achar...


Estes dias passei meio perdido em relação a este Blog, sem saber como dar continuidade as postagens e a prática do diário a/r/tografico.

Mas como sempre é da experiência viva (o que alguns chamariam de prática) que saem caminhos possíveis a se trilhar. E decidi:

Todas as atividades que eu pedir para os alunos fazerem eu também vou me propor a fazer. Se eu faço questão de colocar eles na falta do real para ativar sua criação, tenho de me colocar nesta mesma falta também.

Não se trata aqui da descrição das atividades que vou fazer com meus alunos, mas sim, recriar a narrativa destas atividades assumindo elas como minha prática também.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Próxima aula com os primeiros anos...

Para os primeiros anos, com quem quero trabalhar de início o desenho, autoria compartilhada, e desmistificar o discurso do "não sei desenhar", pedi que cada um trouxesse um desenho de uma criança entre 3 e 6 anos de idade. A ideia é passar algo sobre luz e sombra, degradês, hachuras, e fazer com que eles treinem pintando desenhos de crianças pequenas. Além disso, o fato de eles terem de se relacionar com uma criança, pedir um desenho feito especialmente para eles, assinado pela criança, tem um conteúdo relacional sobre respeito, afeto, e autoria compartilhada.

A pergunta é: será que a maioria fez a tarefa e foi atrás de uma criança pequena pedir um desenho?

A ideia para esta atividade partiu da notícia sobre o pai que coloria os desenhos das filhas:

O que acontece quando duas crianças deixam o pai colorir seus desenhos


Replanejando....


Avaliar a própria prática é sem dúvida necessário. Assim, a aula que dei para um primeiro ano na segunda feira, que foi chata e maçante, pode ser reestruturada para ser mais dinâmica com outra primeira série no dia seguinte. Cometi o erro bobo, a princípio, de fazer uma aula faixa basicamente com a minha fala. Que saco, nem sei como alguns aguentaram. Deixei para o final a atividade com um "desenho diagnóstico", onde eles desenharam e escreveram atrás sua opinião a respeito do desenho. No dia seguinte, fiz diferente: fala introdutória, atividade de desenho diagnóstico, conversa sobre os desenhos, e a o restante da fala com conteúdos sobre as fazes do desenho da criança.

Uma simples troca de ordem do planejamento da aula mudou completamente o envolvimento dos alunos. Ta ai algo que eu já sabia, mas o exercício de retomar e refletir sobre a prática é algo que nos força a pensar com maior agilidade.

Hoje to com preguiça de criar uma imagem, vou usar uma da internet que tem relação com meu sentimento para com a prática de um diário além da referência a meu próprio repertório cultural.


sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

"Se eu dava aulas tão bem dadas, por que razão haviam alunos que não aprendiam?"


Quando se fala o nome "Escola da Ponte" surgem alguns sorrisos amarelos, risinhos baixos e de lado, como se a experiência desta escola fosse algo a ser desconsiderado por ter um modelo diferente. Talvez se esqueça do fato de que seus alunos tem os melhores índices nos testes nacionais em Portugal. Quando Zé Pacheco diz que "quem faz educação, não fala a respeito, e quem fala não faz", ele nos motiva a seguir em frente como educadores que não param de pesquisar e refletir sobre sua prática.

Mais um motivo do por que a a/r/tografia me atrai, pois através de sua prática me vejo como educador, pesquisador, e artista, produzindo comigo e com os alunos cosias que eu gosto. Bom, fiquem com uma pequena grande fala de José Pacheco:

http://www.youtube.com/watch?v=mxCPK0mRqC8

Meu "pessimismo"...


Antes que alguém confunda, quero deixar claro o objeto a que se dirige meu aparente "pessimismo".

Sou otimista no que diz respeito as relações de ensino e aprendizagem entre as pessoas: elas acontecem desde sempre, muito antes da existência da escola, e se não existissem, não teríamos a cultura e tecnologia que temos hoje. Como o desenvolvimento de tudo na cultura (entendida aqui como conhecimento humano que modifica a matéria e o espírito), as relações de ensino e aprendizagem vão se especializando: pessoas se dedicam a experienciar ela de forma plena, pesquisam, praticam, teorizam. Não fosse esse meu otimismo, hoje eu seria qualquer outra coisa menos educador.

Mas o que por vezes vou retomar, e que me enche de angústias, são os limites estreitos da atuação dentro da instituição "escola moderna", essa que deve muito as consequências da revolução industrial. Essa escola que funciona como fábrica, com suas sirenes, tempos e espaços de máquina, desumanizados. Explico: quando pensamos em fazer algo, pesquisamos, experienciamos e pomos em prática, temos uma sirene que nos dá apenas 40 minutos, de um momento específico, para fazer isso? Só mesmo na "fábrica" e na "fábrica de gente entediada" que (não)funciona assim.

Se eu planejo uma atividade de artes, e sei que ela pode ser realizada em 20 minutos, tenho de adequar ela aos 40, 45 minutos de uma aula, "enchendo linguiça". Se a atividade exigia 2 horas, tenho de picar ela, ou retirar partes relevantes para novamente adequar ela ao tempo da fábrica. Na vida não é assim que aprendemos, por que tem de ser assim na escola?

A escola fruto do pós revolução industrial também carrega algo que muito me incomoda: seu caráter de depósito de crianças. Os pais precisam trabalhar, ir para a outra fábrica, e o que fazer com seus filhos? Para muitas pessoas, incluindo as que estão na escola, pouco importa averiguar se há verdadeiro aprendizado, mas conta mais que os alunos "estejam na escola e não fazendo bobagem por ai". A sociedade, em geral, se contenta com o fato da escola ser um grande depósito de jovens, para eles "não incomodarem".

Cada vez mais penso que a suposta crise da escola que vivemos é outra coisa. A escola moderna já está em crise faz tempo, ela não é eficaz em gerar relações de ensino e aprendizagem. Doze anos da vida de um jovem, na escola, e você pede pra ele dizer o que aprendeu lá, e garanto que em menos de meia hora ele verbalizará tudo que consegue se lembrar. Se ele tivesse experiências plenas de sentido para contar, isso seria diferente, pois ele teria de narrar as experiências.

O que está em crise hoje é o depósito de jovens. O terror que as pessoas nutrem com relação ao mundo, grande parte estimulado pela mídia, também invade a escola, e ela parece um depositório menos eficiente para os jovens "não fazerem besteiras por ai". O mundo lá fora tornou-se demasiado interessante para a escola conseguir domar e domesticar seus alunos com a mesma eficiência de antes. Alguns pensam que a solução é midiática: fazer da escola um circo tecnológico, impressionar pais e alunos com um ambiente de ensino hightech. A tecnologia tem de ser usada a nosso favor, mas não é ela por si só que vai nos fazer avançar nas relações de ensino e aprendizagem.

Apesar destas considerações, prefiro estar lá na escola, nadando contra a corrente, e escovando a contra pelo.


terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Hoje eu vou dormir feliz...



O primeiro dia de aula...


Dizer que a educação estadual está sucateada é senso comum, mas ver isso de dentro é elevar a situação ao quadrado. Levarei alguns dias para dizer tudo sobre este um dia. Mas hoje vou me ater a um sentimento que foi forte, que abate o professor em sala de aula, e do qual nunca haviam me falado: a solidão.

É solitário estar na figura do professor. É solitária a relação com a direção, que trata o professor, em primeiro lugar, não como educador, mas como um "empregado", um possível "vagabundo" que a priori não tem responsabilidade e fara de tudo para matar serviço. Não há relação de pertencimento aqui.

É solitária a relação com os colegas professores, com quem temos muito pouco contato, apenas alguns minutos antes das aulas, e durante o curto intervalo. Nesse contato, sobra tempo apenas para reclamar das mazelas de ser professor, algo que não chega a lugar algum, e a mim não serve para me reconhecer diante do colega.

É solitário na sala de aula, onde existe um abismo entre professor e alunos. Essa solidão tem solução, com muito trabalho de "convencimento" dos alunos a se interessarem pelas atividades que você propõe, e virá apenas depois de alguns meses. Mas a instituição "escola" não contribui para ela. Os interesses dos alunos são uns, o do professor são outros, sendo que os primeiros estão ali por obrigação (e os segundos não?).

Se os interesses não convergem, não há pertencimento, e somos solitários. A instituição "escola moderna", que nasceu com a modernidade histórica, é feita para nos por em situações de "obrigatoriedade", de falta de escolha dos interesses. Não há como culpar a falta de interesse dos alunos nesse ambiente. Ao professor fica a tarefa difícil de "convencer" os alunos que seu conteúdo é "importante" e interessante.

Uma de minhas tarefas, como professor, é não terminar o ano me sentindo só. Em relação a estrutura escolar, aos colegas e direção, não tenho esperanças. Minha aposta é nos alunos. Terminar o ano com interesses convergentes não significa que apenas os alunos devem ser convencidos do meu desejo, mas que eu terei de me abrir aos desejos e interesses deles, para acharmos o ponto de convergência e não nos sentirmos solitários.




domingo, 16 de fevereiro de 2014

O guia cego...


Planejar aulas é, as vezes, se sentir como um cego que guia aqueles que enxergam. Quem somos nós pra decidir o que conhecimento será importante ou não para outra pessoa? Deixando as crises de lado, até por necessidade imediata, a resposta que me vem a mente é: alguém não tão diferente daqueles que planejaram o que é ou não é conteúdo a ser ensinado nas escolas.

Escolas, espaço que pretende monopolizar o ensino e a aprendizagem. fútil insistir contra algo humano: o ato de aprender em todos os lugares e momentos da vida. Com sua pretensão, a instituição escola vira uma caricatura do ensino/aprendizagem: lá se aprendem anedotas de aprendizados reais. Por vezes se aprende a fazer uma anedota de um texto, mas não um texto. Se aprende a fazer uma anedota de uma História em quadrinhos, de um desenho, de uma casa, ou qualquer coisa que se queira a prender. Mas não se aprende a fazer a "coisa real", com aplicação prática.

Se tem algo que posso considerar nos meus planejamentos é não fazer atividades que tenham como resultado final uma anedota, uma simulação, um fake. Mas sim, fazer coisas que existam na realidade, não apenas como representação, ou pior, piada de mau gosto com a inteligência dos alunos, que é a mesma de qualquer ser humano.


Uma apropriação de Banksy (que outrora se apropriou de outras imagens)...

sábado, 15 de fevereiro de 2014

O que é um diário a/r/tográfico?


Pra começo de conversa, não falo aqui de nenhum diário burocrático, exigência documental estéril de nosso sistema de ensino que caminha a passos mais lentos que o mundo que o circunda. Como espaço de reflexão do professor, um diário serve para registrar o que nos afeta na experiência educacional. Ali vão angústias, sucessos, fracassos, e demais notas para reflexão. Ou seja, na elaboração do diário é que conhecimento gerado a partir da experiência como professor, no meu caso, como professor de artes.

A/r/tográfico por que além de permitir a contaminação entre as figuras do artista, pesquisador, e professor, a percepção desta contaminação se dá pelo registro gráfico, seja com palavras, imagens, ou da mistura de ambos. Como um tipo de produção estética e ética este diário deve servir como forma de dialogar e divulgar ideias e experiências vividas como professor de artes do Ensino Médio. Também, um empurrão para um professor que deseja se manter ativo na sua produção, sem tornar ela apenas um momento de isolamento. Pelo contrário, não cabe ao professor de artes ser o artista que se tranca na caverna para criar representações do mundo lá fora, mas sim, criar de maneira compartilhada e interferindo no real a sua volta.

Como registro de quem é apaixonado por sua área caberão aqui mais perguntas, dúvidas, angústias, que respostas. Muito do sentido que geramos a partir de nossas experiências é provisório. O provisório, quando interessante, nos acompanha, e nós o testamos até seus limites, para dali ficar com algo e seguir a diante. Não posso prometer ausência de contradições, apenas que prefiro explicitar aquelas que descubro, na busca de sua superação.